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De amores escancarados

21 mar

Eles se conheciam há anos. E por conhecerem-se tanto, já não estavam certos do que era um no outro, o que era o outro em si, o que eram os dois. Mas tinham uma certeza: amavam-se. E de amarem-se tanto eclipsavam-se. Um jogo de esconde-esconde se firmava em cada olhar. Ela, toda abraços e carinhos, aprendeu por ele a se fazer de pedra e racionar-se, como que se o amor fosse gastar. Ele, cheio de sentimentos por todos, guardava o que era dela dentro de si, quase inacessível, não fosse o comentário baixinho ou o olhar dos mais penetrantes. E por isso amavam-se grande e intenso, escancarado por dentro. Às vezes, escapava só um pouco. Às vezes, esse pouco era de menos. Às vezes, doía.

Madrugada de outubro

18 out

Não me contento em conhecê-lo, afagá-lo

Quero sê-lo

Quero está-lo

No estalo selado do beijo

No desejo mais melado

No mistério divertido

No amante namorado

Não amar antes, sem cuidado

Atenção ao mar nunca dantes navegado

A tensão do encontro marcado

O tesão de um corpo estirado

Vulnerável no estrado

Um fado

Um desejo

Um beijo

E morangos mofados

Ciclo virtuoso

18 out

Ler me inspira a escrever. E quanto mais eu escrevo mais eu quero ler. Aí sai mais ou menos isso:

 

Não me dissuadirão

Ainda que muito eu viva

Do teu amor me fiz cativa

Não houve necessidade

Fostes minha opção decisiva

Do teu amor me fiz cativa

Por felicidade, teimosia,

Ainda que sem motivo

Espero que do meu amor

Tu também te faças cativo

Insistirei fielmente

Nessa ferida corrosiva

Do teu amor serei cativa

Uma paixão surgirá

Talvez com muitas conviva

Do teu amor serei cativa

“Es mub sein” – sina escolhida

Meu destino verdadeiro

Teu amor, meu cativeiro

Inspiração

10 ago

Resolveu me visitar, deu nisso:

Não quero nós dois pra sempre
Eu quero o que eu quiser
Me livro deste amor doente
Te ligo quando eu puder

Eu quero você presente
Aqui, a me fazer mulher
Se a gente se desentende
Só vira nós dois quando der

Esdruchulo

Meu poema é rápido
Vem assim, de súbito
Forte como um ácido
Violento como vômito

Tem um quê de escatológico
Busca um apelo lúdico
Supera o que há de lógico
E desconscerta o púdico

Esquece o que há de prático
Desfaz o jogo da métrica
Extrapola o  dramático
Vira poesia tétrica

Não se importa em soar patético
Provoca a platéia estática
Pois perfiro isso ao tom cínico
De mais um discurso político

Foi-se

6 ago

De repente a rima some

Vira vício ou rotina

Fica trancada no sonho

Com meu jeito de menina

Mas se some a poesia

Com o que é que eu vou ficar?

Junto com a fantasia

Foi-se o gosto de amar

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