Arquivos | Olhando longe RSS feed for this section

Pedaços

28 out

(Baseado em algumas histórias reais)

Eles já se conheciam havia tempo o bastante para o silêncio não ser constrangedor.  Em um desses dias de verão e preguiça, ela sucitou apenas mais um assunto comum.

- Nêgo, você gosta de rock mineiro?

- Até que sim. Por quê?

-Ah, era uma das nossas compatibilidades que eu ainda não tinha testado.

-… Posso te pedir uma coisa?

- Claro. Qual CD?

- Não… outra coisa

-Diz

-Não me chama mais de nêgo?

-Ah, sério?

- É… isso é coisa que faz cóceguinha no peito, sabe. Certas coisas não morrem, só dormem… melhor não arriscar

- Tá, desculpa. Mas encostar a cabeça no ombro pode?

- Como sempre pôde.

O silêncio nunca foi um impecilho

Eu não amo você

31 ago

Taí uma equação que nunca fechou na minha cabeça. Todo mundo diz que amor é único, especial e blablablabla. Então como é que todo mundo acha que vai amar e ser amado constantemente? Parece-me que as pessoas precisam mais do estado de espírito do que do sentimento. Aquela inebriante massagem no ego, um sentir-se especial sei lá de onde, uma necessidade.

Isso é mesmo amor? Por que se for, ando num desamor constante e sóbrio…. e não reclamo. Amor pra mim é outra coisa.

E, meio gauche da vida, eu tenho percebido que não sinto feito regras gramaticais. Não tenho caixinhas de “isso é amor”, “isso é amizade”, “isso é tesão”, “isso é coleguismo”, “isso é passatempo”, “isso é irmandade”. Será que tô de todo errada? Não posso, não devo e não quero viver como toda essa gente insiste em viver. E não posso trair a confusão que há em mim.

Epifania

30 jun

Ela é a mesma de sempre, entre os nossos de sempre, chegando como costuma chegar.

Nada parece especial. Houve dias em que ela caprichou no decote, no cabelo, na maquiagem, no andar, no olhar, no disfarce, no carinho e em tudo isso ao mesmo tempo. Hoje não. E por isso ela está do outro lado da mesa, rindo-se toda, sem se importar. Ela é ela mesma de um jeito que eu nunca tinha visto antes. E por ser tão ela,  me joga na cara o quanto me encanta desde o dia em que nos conhecemos. Ela , tantas elas, todas elas, aqui, me esbofeteando pra perceber o que anos de insegurança, covardia e comodismo fizeram questão de esconder. Resta-me observá-la com a certeza de ver a mulher da minha vida.

Bom mesmo é o difícil

3 fev

Me apaixono mesmo por defeitos.

Assim, categoricamente. Qualidades são admiráveis, agradáveis, cheirosas e arrumadinhas. Mas ah! Quando os defeitos se encaixam, que raro, que saboroso. Se fosse pra gostar de qualidade, eu gostava de todo mundo! Todo mundo tem seu lado bonzinho.

Eu digo que amo quando aceito defeitos dos que valem a pena. Se eu gostei de defeitos, lá vem: paixão.

Sabe aquela rabugice ? Me faz ter vontade de ficar em casa de cara amarrada. Sabe aquela frieza que faz qualquer manifestação de carinho valer ouro?  Sabe aquela excesso de princípios que dá vontade de voltar no tempo e virar dona de casa aprisonada? Aquela inconstância da melhor montanha russa do Bush Gardens, que acaba prendendo as borboletas no estômago. A falta de estilo. O jeito que o cigarro pende irritantemente na boca. As vergonhas musicais. O time errado, a mania de falar palavrão, de grunhir, de não responder e decepcionar. Tudo me dá nos nervos e eu não canso de reclamar… mas depois de ranger os dentes eu mordo os lábios. Percebo o tanto que preciso daquilo: da reclamação da briga e da chatice. Se brigo e insisto é porque são só dele os defeitos que me deixam apaixonada.

Desabafo

27 nov

Não sei explicar, mas sinto um peso novo….

Não é mais lição de casa, é auto-estudo.

Não é mais “passar de ano”, é a vontade de estar na faculdade que -acho que- eu quero.

Não é mais minha mãe me mandando comer direito, dormir cedo,  é a minha qualidade de vida.

Não é um compromisso, é o medo de frustar expectativas alheias.

Não é mais precisar do outro pra viver, e sim perceber os reflexos dele em mim…ainda que de longe.

Não é mais o cumprir as regras dos outros, é saber jogar com as minhas.

Acho que  isso é “crescer”, ouso dizer que isso seja “amadurecer”.  Tomar cosciência do peso e da medida dos meus atos e saber que, antes de tudo, sou eu o principal alvo e o único agente de cada um deles. Espero aprender a lidar melhor com isso dia após dia, paulatinamente. Afinal deve ser isso que chamam de “vida” nas rodinhas de gente grande.

“Tenho uma vontade besta de voltar, às vezes. Mas é uma vontade semelhante à de não ter crescido.” Caio F. Abreu

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.