Um dia estranho, depois de uma noite (futebolística, diga-se) estranha, de uma manhã fracassada, dei aquele passo que todo pseudo-cult-semi-depressivo precisa dar: fui ao cinema with me and myself…
Aproveitei uma promoção que eu jurava ter acabado – tão bem anunciada que nem no site do cinemark eu achei- e paguei míseros 3,50 pra adentrar uma daquelas salas bordô do Shopping Santa Cruz. 10 minutos antes, solidão devidamente camuflada entrei no cinema linda e morena pra dar de cara com a imensidão de cadeiras vazias. Saí pra comprar umas balinhas e ver se chegava mais alguém.. e quando voltei havia um aumento exponencial de 3 ocupantes: um casal que descobriu que podia pagar mais barato pra se amassar no cantinho da última fileira e um moço tão perdido e solitário quanto essa que escreve. Bem acomodada, começo a ouvir a agradácel rádio trama ESPECIAL NOEL ROSA… Depois de muito hesitar, liguei pro vovô pra contar desse momento mágico, mas nem ele pôde me atender. Fadada à solitude, deixei que as luzes se apagassem sem demora e comecei a ouvir os estalinhos da antiga fita espanhola – NÃO ERA DIGITAL, DUR.
(E falemos do filme, então)
Apesar de ser uma recém iniciada na obra do espanhol, ouso dizer que Almodóvar está para o cinema assim como o Chico está para a música: sapiência para retratar, falar, entender e tocar o feminino.
E o começo é como tudo, tem sempre um antes. Não há mera apresentação de personagens que passarão a se envolver em uma trama, e sim cada qual com sua própria trama, que se entremeia em outras e se faz viva.
E são vários os deleites. As referências a nossa cultura tropical, abençoada por Deus e bonita por natureza enchem de patriotismo até meu coração que se empolga mais com o Egito na copa das confederações.
Elis Regina cantando “Por toda a minha vida”. Uma mulher,toureira e, óbviamente, um touro – ballet de vermelhos e olhares, planos de arrepiar.
E como se fosse pouco ainda tem o Caetano que dá as caras lá por Madri só pra deixar “os pelos pra cima”com Cucuru de Paloma. A contribuição brasileira ainda vai a citação de Tom Jobim “e amor é a coisa mais triste quando se desfaz”.
E as mulheres de Almodóvar são sempre encantadoras, fortes e labirínticas como as do mundo real, que precisam ser ouvidas, e acariciadas, e compreendidas, precisam de atenção e da certeza de sempre serem importantes nas sábias palavras de Benigno, porque os homens – uns mais, outros menos” hombres” – não passam despercebido por essa trama.
E tem o coma, e a profundidade, e a morte que faz com que se deixe assuntos eternamente pendentes. E tem o falar, o ouvir, o dividir, o sentir e o dançar… como também tem o chorar.
O amor servil e débil de Benigno, a pendência de Lydia, a fuga/busca aflitiva de Marco, a rotina urbana, a arte, tudo o que o filme reflete de mais humano ecoava dentro de mim de uma maneira que não se pode expressar. Pelo menos não aos 16 anos e com tão pouca cultura…
Retiro-me com um humilde “vale a pena”
Pelo sim, pelo não deixo a dica de Benigno: Hable con ella.